29 de setembro: Dia Internacional de Conscientização sobre Perdas e Desperdício de Alimentos

29 de setembro: Dia Internacional de Conscientização sobre Perdas e Desperdício de Alimentos
Por que cada elo da cadeia, da indústria ao consumidor, tem um papel na meta global de reduzir pela metade o desperdício de alimentos até 2030

 



Por Natália Lima – S2G | Soluções em Sistemas de Gestão

Todo dia 29 de setembro, a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) e o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) promovem o Dia Internacional de Conscientização sobre Perdas e Desperdício de Alimentos. A data foi instituída pela Assembleia Geral da ONU pela Resolução 74/209, de 19 de dezembro de 2019, e é celebrada desde 2020.

O objetivo é chamar governos, empresas, pesquisadores e consumidores para uma ação conjunta em torno da meta 12.3 dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS): reduzir pela metade, até 2030, o desperdício de alimentos per capita no varejo e no consumo, e reduzir as perdas ao longo das cadeias de produção e abastecimento, incluindo as perdas pós-colheita. A mensagem central da campanha é simples: toda ação para reduzir perdas e desperdício de alimentos conta.

O tamanho do problema

Os números divulgados pela FAO e pelo PNUMA mostram por que o tema ganhou tanta atenção:

  • Cerca de 13% dos alimentos, o equivalente a 1,25 bilhão de toneladas, se perderam no mundo em 2021 depois da colheita e antes de chegar ao varejo (FAO, 2023).
  • Cerca de 19% dos alimentos, ou 1,05 bilhão de toneladas, foram desperdiçados em 2022 nas residências, nos serviços de alimentação e no varejo (PNUMA, 2024). As residências respondem por 60% desse total, e cada pessoa desperdiça em média 79 kg de alimentos por ano em casa.
  • Perdas e desperdício geram de 8% a 10% das emissões globais de gases de efeito estufa (IPCC, 2019).
  • Enquanto isso, 7,8% da população mundial, cerca de 645 milhões de pessoas, passou fome em 2025. É o terceiro ano seguido de queda, mas o próprio relatório alerta que o avanço ainda é frágil (SOFI 2026).
  • Perdas e desperdício custam à economia global cerca de 1 trilhão de dólares por ano. Em compensação, estima-se que cada dólar investido na redução do desperdício traga um retorno de 14 dólares (Hanson & Mitchell, 2017).

Em outras palavras: produzimos alimento, gastamos água, terra, energia e trabalho para isso, emitimos gases de efeito estufa no caminho e, no fim, uma parte expressiva não alimenta ninguém.

Perda não é desperdício

Os dois termos costumam ser usados como sinônimos, mas a ONU os mede de forma separada, com dois indicadores diferentes:

  • Perda de alimentos acontece desde a pós-colheita até antes do varejo: no transporte, no armazenamento, no processamento e na distribuição. É medida pelo Índice de Perda de Alimentos, coordenado pela FAO.
  • Desperdício de alimentos acontece no varejo, nos serviços de alimentação e nas residências, quando alimento ainda apto para consumo é descartado. É medido pelo Índice de Desperdício de Alimentos, coordenado pelo PNUMA.

A diferença importa porque as causas e as soluções são diferentes. Uma indústria lida principalmente com perdas: derramamentos, aparas de processo, produto fora de especificação, lotes vencidos no estoque. Um restaurante ou um supermercado lida mais com desperdício: excesso de produção, porções grandes, produto que vence na gôndola.

Onde as perdas acontecem

O Protocolo de Perda e Desperdício de Alimentos, referência internacional para medir o tema, organiza as principais causas por etapa da cadeia. Algumas das mais comuns são:

  • Manuseio e armazenamento: falta de armazenamento refrigerado, embalagem ou contêiner inadequado, manuseio indevido na carga e descarga, atrasos no transporte.
  • Processamento: derramamentos, contaminação na linha, erros de processo que geram defeitos, especificações de produto muito restritivas (tamanho, aparência).
  • Distribuição e varejo: falta de previsão de demanda, reposição que leva o consumidor a escolher sempre o produto mais novo, falta de um sistema para doação.
  • Consumo: embalagens maiores do que a necessidade, falta de planejamento de compras, confusão com as datas do rótulo, armazenamento inadequado em casa.

Conhecer a causa é o que permite agir. Sem isso, a empresa fica só registrando o prejuízo.

Prevenir antes de descartar

As orientações da FAO e do PNUMA propõem uma ordem de preferência para lidar com alimento que sairia da cadeia. Do melhor para o pior destino:

  1. Prevenir: evitar que a perda aconteça, com melhoria de processo, de previsão de demanda e de armazenamento.
  2. Redistribuir para pessoas: doar o alimento seguro que não será vendido.
  3. Destinar à alimentação animal: aproveitar subprodutos e excedentes que não servem para consumo humano.
  4. Reciclar: compostagem ou digestão anaeróbica, que gera biogás.
  5. Recuperar energia: incineração com aproveitamento energético.
  6. Descartar: aterro, incineração sem recuperação de energia ou esgoto, que é a última opção.

A ideia é “subir” cada resíduo nessa escada. O que hoje vai para aterro pode ir para compostagem, e o que vai para compostagem talvez possa ser doado ou virar alimento para animais. Sempre com uma condição: nenhuma dessas alternativas pode colocar em risco a segurança do alimento.

O chamado às empresas

O material oficial do Dia Internacional traz recomendações específicas para as empresas do setor de alimentos:

  • atuar em parcerias ao longo da cadeia para ampliar a prevenção de perdas e a doação de excedentes;
  • medir e divulgar publicamente as perdas e o desperdício, com mais transparência e responsabilidade;
  • usar os canais de comunicação da empresa para orientar o consumidor com soluções práticas contra o desperdício em casa.

Na prática, isso começa dentro de casa. Algumas medidas que estão ao alcance de qualquer indústria ou operação de alimentos:

  • medir quanto se perde hoje, em cada etapa, para ter uma referência;
  • investigar a causa das maiores perdas, em vez de tratar só o sintoma;
  • revisar o prazo de validade dos produtos, para verificar se ele pode ser estendido com segurança;
  • reforçar a rotação de estoque (PEPS e PVPS, ou FIFO e FEFO);
  • buscar mercados alternativos para produto seguro que não atende à especificação de qualidade;
  • estruturar a doação e a destinação de subprodutos com controle, registro e rastreabilidade.

A FSSC 22000 e a agenda de perdas e desperdício

Para as organizações com certificação FSSC 22000, esse chamado já faz parte da rotina. Desde a Versão 6, o Esquema trata perda e desperdício de alimentos como requisito adicional auditável. A Versão 7.0, publicada em maio de 2026, manteve e reforçou esse requisito. Entre os motivos da nova versão, a própria FSSC cita o “fortalecimento dos requisitos para apoiar as organizações em suas contribuições para cumprir com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS)”.

O requisito adicional 2.5.16 – Perda e Desperdício de Alimentos se aplicam a todas as categorias da cadeia de alimentos, exceto a categoria I (produção de material de embalagem). Além da seção 8 da ABNT NBR ISO 22000:2019, a organização deve:

  • ter política e objetivos documentados, com a estratégia para reduzir perdas e desperdício na organização e na cadeia de abastecimento relacionada. Novidade da V7: os objetivos devem ser apoiados por metas claras e mensuráveis, com prazos definidos;
  • ter controles para a doação de produtos a instituições filantrópicas, funcionários e outras organizações, garantindo que esses produtos são seguros para consumo;
  • gerenciar os excedentes e subprodutos destinados à alimentação animal, para evitar a contaminação desses produtos;
  • garantir que esses processos cumpram a legislação aplicável, sejam mantidos atualizados e não tenham efeito negativo na segurança do alimento.

O item (d) dá o tom do requisito: reduzir desperdício nunca pode ser feito à custa da segurança do alimento. Doar produto sem rastreabilidade ou destinar à alimentação animal um subproduto armazenado junto com resíduo não é boa prática ambiental. É uma falha do sistema.

A V7 também trouxe uma novidade fora do 2.5.16. No requisito de design e desenvolvimento de produto (2.5.13), as organizações que concebem embalagens primárias devem considerar, entre outros princípios, a proteção do produto contra deterioração, o prolongamento da vida útil e a minimização de perda e desperdício de alimentos, sempre sem impacto negativo na segurança do alimento.

Para apoiar a implementação, a FSSC publicou em 2023 um Documento de Orientação sobre Perda e Desperdício de Alimentos, disponível em português. Ele é informativo, não cria obrigações novas, e propõe um caminho em três etapas: definir o objetivo (quantificar as perdas atuais, investigar as causas e estabelecer metas de curto e longo prazo), medir (monitorar em intervalos definidos e acompanhar o destino do material perdido) e agir (investigar quando a meta não é atingida e buscar mais redução quando é). O documento também recomenda que a revisão das metas seja considerada na análise crítica pela direção.

Na nossa experiência com implementação e auditoria, os pontos mais frágeis costumam ser a política genérica, sem uma referência em números; a meta sem método de medição; a doação informal, sem registro de lote nem avaliação de segurança; e o subproduto para alimentação animal sem segregação do resíduo comum.

Para fechar

O Dia Internacional de Conscientização sobre Perdas e Desperdício de Alimentos é um bom momento para qualquer organização da cadeia fazer uma pergunta simples: sabemos quanto alimento perdemos, por que e para onde ele vai?

Reduzir perdas é bom para o planeta, para quem passa fome e para o resultado da empresa. Feito com controle, é também bom para a segurança do alimento.

Referências

  1. FAO; PNUMA. International Day of Awareness of Food Loss and Waste – Get involved! Roma: FAO, 2025 (CD5556EN). Disponível em: fao.org/platform-food-loss-waste.
  2. PNUMA. Stop Food Loss and Waste – The facts. Disponível em: stopfoodlosswaste.org.
  3. FAO. Indicador ODS 12.3.1 – Perdas globais de alimentos. Portal de Dados dos Indicadores dos ODS. Disponível em: fao.org/sustainable-development-goals-data-portal.
  4. PNUMA. Food Waste Index Report 2024.
  5. FAO; IFAD; UNICEF; WFP; WHO. The State of Food Security and Nutrition in the World 2026 (SOFI 2026). Roma: FAO, 2026.
  6. IPCC. Climate Change and Land – Special Report, 2019.
  7. Food Loss and Waste Protocol. Food Loss and Waste Accounting and Reporting Standard, versão 1.0, 2016.
  8. FSSC 22000. Esquema FSSC 22000 Versão 7.0 – Parte 2, requisitos adicionais 2.5.13 e 2.5.16. Maio de 2026.
  9. FSSC 22000. Documento de Orientação: Perda e Desperdício de Alimentos. Versão 1, setembro de 2023 (tradução para o português).
  10. ABNT NBR ISO 22000:2019 – Sistemas de gestão da segurança de alimentos – Requisitos para qualquer organização na cadeia de alimentos.

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